Vida de Artista
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A MAÇÃ NO INVERNO – SEM NEVE!

luiz carlos sá

 

Uma das graças de enfrentar o frio é ver a neve cair. Desde que me entendo, a criança dentro de mim sonha com um natal nevado como nos filmes da Disney. Mesmo sendo um viajante várias vezes invernal, só vi neve caindo uma vez. Não riam: foi em 1989, dentro de um avião no aeroporto JFK, voltando para casa depois de uma boa temporada novaiorquina hospedado na casa da minha querida amiga Lizzie Bravo. Vendo-me decepcionado pela ambição insatisfeita de ver o nunca visto, Lizzie me dava força: "vai nevar, é só questão de embranquecer o céu..." (ela foi a primeira pessoa que explicou para este caipira solar as caprichosas condições necessárias para o Grande Evento...). Chegada a hora da partida, foi só sentar na poltrona e olhar pra fora que a neve começou a cair, linda, espessa, festiva... os passageiros fizeram "oh!" em coro, de tão perfeita que ela chegou, neve de filme, parecendo mesmo estar sendo atirada por uma daquelas máquinas hollywoodianas que tentam compensar o aquecimento global nas estações de esqui mundo afora. Um minuto depois o comissário anunciou nossa partida, certamente apressada pela possibilidade próxima de fechamento do aeroporto. E lá fui eu pelos ares nevados, desejando ter ficado pelo menos mais um dia. De outra vez, também em Nova York, fui atingido por uma geada metida a besta, uma quase neve. Olhei aqueles flocos finíssimos que bailavam às luzes dos postes, tentando entender o que seriam. Teria eu sido finalmente premiado? Com a palavra os meteorologistas.

Já pude deitar e rolar na neve, fazer meu filé à milanesa com biju numa encosta deserta dos Andes chilenos. E olha que eu já não era mais muito garoto: pra ser sincero, já passava dos quarenta... Só parei de curtir aquela viajada tardia quando dei de cara com um casal, certamente chileno, que me olhava, espantado. Levantei-me, meio sem graça, mas tive o insight de dar uma sincera gargalhada. Eles riram comigo e com certeza só por timidez não foram lá me abraçar e compartilhar da minha felicidade infantil.

Essa experiência foi absolutamente incrível. Deve ser equivalente à do interiorano que vê o mar pela primeira vez. Só troquei o azul pelo branco, ambos infinitos em minha imaginação e na dele. Mergulhamos ambos, nessas ocasiões primais, naquilo que não conhecemos: se ele periga morrer afogado, periga eu morrer congelado. Para mim foi um contato com algo de alienígena. Textura, temperatura, tudo desconhecido, infinitas possibilidades de brincadeiras. Para mim, outra areia, para o garoto de Nova York que chega no verão de Ipanema, outra neve.

Em viagens esperançosas eu costumava olhar da janela dos hotéis aguardando a qualquer momento uma daquelas nevascas que saem nos telejornais do mundo inteiro.

Carioca empedernido, criatura do sol, bicho de morro e de praia, eu me consagraria então como aquele Legal Alien de quem Sting fala no seu "Englishman in New York". Se ele, inglês, sentiu-se assim, faça ideia eu.

No caso particular da Nova York invernal, penso nela como uma cidade feia, agravada por um inverno que iguala tudo em cinquenta tons de cinza nada sensuais, ainda mais quando comparados aos também espantosos quarenta positivos do meu Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos - na admirável e precisa descrição de Fausto Fawcett, Carlos Laufer e Fernanda Abreu. Mas a feiura daqui é relativa. Se eu estivesse no Central Park em outubro talvez ficasse maravilhado pelas cores do outono; visitar o MOMA ou o Guggenheim é uma exposição ao belo; o skyline invernal da cidade vista da Liberty Island - com uma luz toda própria - é um indubitável colosso. Assim como podemos achar beleza no colorido das comunidades cariocas, onde a miséria briga com a alegria, também a encontramos no visual luminoso das penthouses dos quem sabe entediados zilionários que no nosso imaginário terceiro-mundista entornam intermináveis drinques, descortinando de ponta a ponta o banco de areia mais caro do Mundo, berço do seu inquestionável poder, donos das borboletas que num só bater de asas são capazes de transformar nossas vidas, para o bem ou para o mal.

Mas neve caindo sobre mim, que é bom, ainda não senti...

 

 

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