Vida de Artista
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A AUDIÇÃO ou TREMER É PRECISO

luiz carlos sá

 

Na minha vida profissional não foram poucas as vezes - nem as pessoas - que me viram tremer e temer. Todos sabemos que a segurança tende a nos abandonar quando mais precisamos dela, numa espécie de radicalização cruel da malsinada Lei de Murphy. Mas justamente agora, quando estou começando a escrever sobre isso, descubro que sou um privilegiado: posso contá-las nos dedos. E em conversas com meus colegas de profissão descobri que longe de ser um dos únicos a tremer, nenhum deles  e nem eu conhecemos o hipotético super-artista que jamais tenha metido os pés pelas mãos pelo menos uma vez, traído pela ansiedade, pela inexperiência ou por um súbito não-se-sabe-bem-o-quê que nos deixa ali no palco como um animal prestes a ser sacrificado por espíritos malignos. Então, num assomo de coragem que com certeza será reconhecido por meus generosos leitores, vou relembrar aqui - aproveitando também para poupar assim umas boas sessões de análise - as vezes em que me senti uma espécie de micróbio incompetente e inútil diante da deusa Música, esperando, submisso, ser por ela ritualisticamente esborrachado como se fora um inseto afônico.

Cena Um: 1965, estúdio da antiga Odeon, na avenida Rio Branco, Rio de Janeiro. Lá estou eu, só naquela sala imensa, com o meu Di Giorgio 34 nas mãos, olhando o distante  aquário (assim chamamos a Técnica) onde nadavam Milton Miranda - diretor artístico da gravadora - e Nivaldo Duarte, operador de áudio. Milton aperta o comunicador e comanda:

- Pronto, Luiz, vamos começar?

Senti-me como que olhando para dentro da própria cabeça e não vendo nada ali. De repente, o filme passou, mas um filme já visto, com o amigo Mário Pires, admirador das minhas primeiras composições, me falando:

- Meu pai já agendou uma audição tua lá na Odeon.

- Que é isso... Tá louco, Mário?

O dr. Mário Cardoso Pires, pai, num tempo em que inexistiam planos de saúde e as empresas tinham médicos conveniados, era o clínico geral da Odeon. Mariozinho gravara minhas músicas num gravador de rolo Akai e convencera o pai - sem que eu soubesse - a conseguir uma audição com Milton Miranda. Quando percebi que era verdade, tentei escapar, mas respeitava muito o dr. Mário para deixá-lo numa situação de pedir favores inconsequentes. Então, ali estava eu. Acordei subitamente do "filme" com a voz do Nivaldo:

- Tá rodando!

Olhei o violão e só vi mistérios perdidos entre cordas e trastes. Pra que servia aquilo tudo? Minhas mãos tremiam. Não sei quanto tempo se passou até que Nivaldo parasse a máquina:

- Dando um tempo...

Milton Miranda - que infelizmente já partiu faz tempo, deixando nosso meio musical bem mais pobre - era uma dessas raras pessoas em cargo de chefia que têm imediata compreensão do que aflige os outros pobres mortais. Saiu da técnica, veio até mim e sorriu:

- Você está me devendo pelo menos duas músicas.

Olhou displicentemente o relógio:

- Mas hoje é sexta. Temos muito tempo ainda e você decide por qual delas começa.

  Sorriu de novo e voltou para a técnica.

Livre do surto pela inteligente e carinhosa intervenção de Milton, gravei três naquela tarde: "Capoeira de Oxalá", "Giramundo" e "Escadas do Bonfim". Ele me considerou ainda "verde" para um disco, mas acabou por me dar três sucessos de execução nas rádios, uma com Rosa Marya, então uma adolescente em início de carreira - "Capoeira de Oxalá" - e as outras duas num EP duplo com Pery Ribeiro.

Cena dois: 1º Festival Internacional da Canção, Maracanãzinho, 1966. Classificado para a finalíssima, minha notória incapacidade de dizer "não"- e tive que dizer muitos, porque os melhores cantores da época correram atrás da oportunidade de cantar minha "Inaiá"no festival - perdera para minha teimosia em interpretá-la eu mesmo. Na noite de classificação, uma então inédita segurança de palco me tomou de assalto e cantei como nunca. No primeiro refrão, já era aplaudido pelas quase vinte mil pessoas que lotavam o ginásio. Agora, na noite das vencedoras, era a hora da verdade. A música era arranjada e regida por uma das principais figuras do meu início de carreira, o maestro Lindolfo Gaya. Na contramão de Milton Miranda, que me avisara que era muita areia pro meu caminhãozinho e fizera de tudo para que eu entregasse a defesa da música para Pery Ribeiro, Gaya me dera força para que eu encarasse a imensa plateia do festival.

Mas tremi. Baixou aquele "não-se-sabe-bem-o-quê" que falei lá no princípio. Me senti a pessoa errada num lugar estranho. Cantei um arroz com feijão qualquer e não convenci os jurados, ficando em nono lugar na classificação final. Ao sair do palco, um produtor - não lembro quem - olhou para mim com um misto de pena e perplexidade e falou:

- Mas porque você não cantou como ontem!?

Seis anos mais tarde, já surfando no sucesso do primeiro disco do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, encontrei Pery numa casa noturna onde ele estava se apresentando e contei-lhe do arrependimento de não tê-lo deixado interpretar "Inaiá". Pery riu:

- Mas o que interessa é que você está aqui onde está, hoje!

  E me abraçou:

- Perder faz parte!

  Eu respondi:

- Claro, faz parte. Mas humildade também!

  E voltamos filosoficamente aos nossos uísques.

Deu pra mim. Algum dia, recuperado dessas lembranças, prometo que conto as outras tremidas.

 

 

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