Vida de Artista
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TAVITO - 1947/2019

luiz carlos sá

 

Pessoas como Tavito fazem com que a gente queira que o Céu exista de verdade, porque esse seria o único lugar digno de recebê-lo após sua intempestiva e surpreendente partida. Ainda no Natal de 2018 estávamos nós lá em casa, com nossas famílias, festejando a vida. E de repente, isso.

Claro que é ilusão conceber a morte como alguma coisa alheia ao que vivemos, mas há pessoas que não desaparecem de todo: mais dia, menos dia, poderiam talvez entrar de novo por nossa casa adentro, sem nenhuma cerimônia, burlando a realidade do mesmo jeito que viveram, imersas em sonhos. Viver não é para amadores, mas pode ser viável para sonhadores profissionais, e Tavito era um dos integrantes dessa turma.

Nenhum aspecto musical era estranho a ele: produção, arranjos, jingles, voz, violões, guitarras... Quando o conheci fiquei impressionado com o desembaraço com que fazia soar lindamente sua duríssima viola Vox de 12 cordas. Me acreditem, porque tentei tocá-la... seus encadeamentos harmônicos de acordes à primeira vista simples eram sucessivos "ovos de Colombo". "Como não pensei nisso antes?" - enlouquecia eu, ao vê-lo passear por qualquer música com uma facilidade irritante, destrinchando o complicado como quem almoça um delicioso arroz-com-feijão. Sua melodia para "Casa no Campo" é um claro e óbvio exemplo disso, sem falar em "Rua Ramalhete", onde o inesperado que ele gostava de ver acontecer fez com que melodia e harmonia começassem por onde outros menos avisados e espertos deixariam para o meio. Compor é isso.

Onde o conheci? Em 67 ou 68, em Juiz de Fora, naqueles festivais repletos de mineiros onde nós, cariocas, nos entrelaçávamos com eles? ( o que resultou no que hoje chamamos de "Rock Rural" e "Clube da Esquina"). Na reportagem que fiz- como editor de música e fotógrafo do "Correio da Manhã" - sobre o Som Imaginário, no apartamento onde eu morava no Jardim de Allah? no bar Sachinha s, no Leme, ponto de encontro de jovens músicos emergentes nos anos 70, onde comecei minha parceria com Zé Rodrix? No nosso primeiro trabalho juntos, quando ele foi sugerido pela Odeon como produtor e arranjador do meu single solo antes da formação do Sá, Rodrix & Guarabyra? Nossos caminhos se cruzaram de tal maneira que fica impossível lembrar a primeira vez. Mas sei que nos entendemos desde sempre, que compusemos dezenas de músicas juntos, que ele produziu vários discos de Sá & Guarabyra com e sem Rodrix, que perdi a conta de quantos jingles fizemos enquanto sócios na Miolo Propaganda, que concordamos alegremente e discordamos educadamente em sabe Deus quantas ocasiões em que nossas opiniões foram postas à prova. Amizade é isso.

Numa triste madrugada de maio de 2009 recebi seu telefonema que me informava da morte de Zé Rodrix, nosso irmão em comum. A notícia era de tal maneira inacreditável que a princípio duvidei do que estava escutando. Só acreditei porque era ele, Tavito, quem me contava. Eu, carioca em Minas, e ele, mineiro em São Paulo, nos abraçamos à distância como sobreviventes de um naufrágio. E agora, dez anos depois, Tavito parte também, contrariando o otimismo que - no Natal passado - me fez acreditar que ainda poderíamos conviver por muito tempo. Criar novas músicas. Produzir outros discos. Fazer sei lá mais o quê juntos. Porque morar em cidades diferentes não nos afastava. Sempre acreditei na sua resiliência, porque sabia que ele não era pessoa de deixar alguma coisa pela metade.

Mas não podemos sempre confiar nas nossas expectativas. Tombos existem. Ignorá-los é bobagem, esperar por eles é idiotice. A cada momento temos que aprender a prosseguir nessa corda bamba que é existir e resistir. Resistir às perdas é crucial, porque a vida é um fio que a todos nos une. Então vamos em frente sem Tavito. Sem aqueles acordes. Sem aquelas vocalizações tão bem armadas. Sem aquelas músicas de acordes tão bem encadeados. Sem aquele humor inteligente. Sem aquele abraço, amplo, apertado e sincero. Sem o que nos lembra que com Tavito teríamos um amigo sempre a postos.

Mas isso é real. Isso é viver. E o mundo é assim.

 

 

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