Vida de Artista
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DE ONDE ELAS VÊM, AS MÚSICAS?

luiz carlos sá

 

Naquela sossegada Vila Isabel dos anos 50 o verão carioca já era tórrido, mesmo à noite. Na varanda de casa, deitado no colo de minha mãe, eu era embalado por voz e violão paternos. Adivinhando um cochilo do filho insone de calor, meu pai quase sussurrava o "Feitio de Oração", uma das minhas Noelinas precocemente preferidas. De olhos já fechados, comecei a encadear a melodia com as palavras, o que me fez estremecer de súbito, uma pergunta desperta na cabeça:

- Pai, de onde elas vêm, as músicas?

Meu pai parou de tocar e meio que sorriu, surpreso:

-Ué, filho, da cabeça do compositor...

Pulei fora do colo aconchegante e fiquei de frente para o violão, admirando a marchetaria de madrepérola que sempre me encantava com seus detalhes, ao mesmo tempo em que já engendrava a próxima pergunta:

- Mas como assim?

Meu pai agora pensava ao som de acordes dispersos. Esperei pacientemente a resposta que ainda demorou alguns compassos.

- Bom, é que... - ele suspirou e parou de tocar - nossa, filho, que pergunta!

Minha mãe, que não admitia ausência de respostas, interveio:

- É inspiração, filho.

- Que é isso?

Papai pareceu retomar o controle:

- É uma coisa que acontece com a gente. Vem do coração e da cabeça. Aí a gente vai pensando, pensando e sentindo ao mesmo tempo.

- Sentindo o quê?

- Olha... O que você estiver sentindo... Alegria, tristeza, amor, raiva...

Achando que a areia estava ficando pesada demais para um caminhãozinho tão pequeno, mamãe lançou um daqueles seus olhares "moderadores" no rumo do marido e estendeu-me a mão:

- Não te preocupa com isso agora não, filho. Mais tarde você vai entender melhor.

Livrei-me da carícia, ainda inconformado e parti pra cobrar explicações sobre a frase inicial da letra do "Feitio" (quem acha/ vive se perdendo/por isso agora eu vou me defendendo) que eu não conseguia compreender:

- Mas como é que a cabeça do compositor pensou que quem acha vive se perdendo? Ele achou ou perdeu?

Minha mãe era uma mulher extremamente persistente. Se ela achasse que não era hora, a hora não era mesmo, não passava a ser, era uma hora irremediavelmente fora de hora. E assim foi:

- Mais tarde, filho, mais tarde. - e aos poucos ela me reconquistou para o seu colo, fazendo-me dormir ao som de Noel por via de outra música. Não me pergunte qual, eu ainda pensava naquele estranho paradoxo do "Feitio de Oração".

Mas de onde é que elas vêm, as músicas? Até hoje não sei. Às vezes acordo no meio da noite com uma melodia soando furiosamente na minha cabeça. Ela continua seu estrépito até que eu corra para o violão e me livre dela, que em troca desse parto - e sem a menor consideração pela sofrida paternidade - me mantém acordado pelo resto da madrugada, pensando agora na letra. Ou de repente é a letra que me pega, forçando-me a escrevê-la onde quer que eu esteja, mandando-me pedir uma caneta emprestada a estranhos ou tendo que suplicar ao garçom - uau, que chavão! - uma folhinha daquele pequenino bloco engordurado, só pra chegar em casa e ficar boladíssimo com a total ausência da genialidade que eu acreditara ter produzido na dita folhinha, cujo destino no mais das vezes é o lixo, o que nos carrega de volta ao clichê "50% inspiração, 50% transpiração". No caso, faltou a transpiração e - pior - o refrão surrado tornou-se a mais pura verdade, com ligeiras alterações de percentuais, caso a caso. Mas e se elas estão no ar? E se qualquer um puder percebê-las, como a uma nuvem? E se todas elas estiverem numa espécie de i-cloud, prontas para serem escritas em partituras virtuais, esperando apenas aqueles mais capazes de discernir sua forma abstrata e transformá-las em alguma coisa de concreto e cantável? 

Porque fico pasmo pela integridade com que algumas delas me chegam, sem dia ou hora marcados, inteiras e completas com seus pontos, vírgulas, divisões e acordes, como se tivessem sido previamente coordenadas por uma parte do meu cérebro sobre a qual não exerço nenhum mando, um governo paralelo que redige suas próprias leis e se digna a repassá-las para mim por mera gentileza: "toma essa aí pra você!". E eu fico ali, perplexo diante daquilo tudo, me perguntando se fui eu mesmo que fiz uma coisa tão de dentro, tão íntima que parece vinda de fora do planeta. Eu não queria contar aquele segredo! Enquanto isso, outras me exigem suor e angústia, por ter que revisitá-las anos a fio até que pareçam perfeitas, somente para que no dia seguinte as imperfeições gritem nos meus ouvidos e me façam retomar o trabalho do começo, como se elas jamais houvessem passado pela minha cabeça. E elas estão sempre chegando. Vêm de todos os lugares, do coração, da cabeça, da alma, do sexo, um formigueiro de notas e palavras subindo por mim, encontrando-se em mil combinações inusitadas, formando figuras, formas, esculturas e símbolos, invadindo sem-cerimoniosamente cada centímetro da minha imaginação. Mas se elas demoram a chegar, temos que lidar com esse incômodo vazio que se instala na cabeça dos criadores ociosos.

E isso dói.

 

 

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