Vida de Artista
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CAMINHANDO CONTRA O VENTO

luiz carlos sá

 

Minha vida musical nos anos 60 girou basicamente em torno da garagem da Luli. Explicando melhor: Luli (depois "Luhli", com Luhli & Lucina) morava a meio quarteirão da minha casa. Em sua espaçosa garagem, naquela confortável e linda casa da rua Clóvis Beviláqua, Tijuca, Rio de Janeiro, Brasil, a música tomou o lugar dos carros. Por ironia do destino, nos conhecemos num ônibus (o 26, Usina-Mourisco), eu voltando do Andrews e ela do São Fernando, nossos colégios. Fiquei pasmo ao descobrir semanas depois que aquela minha amiga do ônibus - uma ruivinha magrela, espevitada e falante - tocava um ótimo violão e compunha músicas que estavam anos-luz adiante do meu estágio de compositor principiante. Além disso, Luli dava aulas  e por anos a fio iniciou dezenas de alunos nos mistérios da estruturação de uma música. Com o tempo, sua garagem acabou por reunir tipos diversos - e não raro exóticos - de artistas das mais diferentes tendências: gente de cinema, teatro, jornalistas, produtores de arte... Numa dessas noites de tertúlias lítero-musicais em que eu me lamentava sobre as limitações que a censura ditatorial impunha às minhas músicas (estamos falando de 1967)  minha amiga Tetê Moraes me falou sobre a formação de um jornal-escola que seria encartado no "Jornal dos Sports": um staff de jornalistas profissionais de alto nível chefiado por Reynaldo Jardim - o homem por trás da histórica e revolucionária transformação gráfica do "Jornal do Brasil" no começo dos 60 -  selecionava candidatos que quisessem fazer parte da equipe. Não pensei duas vezes, visto que jornalismo sempre havia sido meu plano B.

Assim foi que na manhã seguinte eu já estava com Tetê no velho prédio do Centro que sediava o jornal. Entrando na redação dei logo de cara com Nelson Rodrigues, que eu idolatrava desde os tempos de "A Vida Como Ela É", coluna proibida para meus olhos então infantis e por eles devidamente devorada logo que meu pai saía e largava o diário em algum canto da casa. Além disso, eu e Nelson dividíamos uma ardorosa paixão pelas cores do tricolor carioca, nosso Fluminense. Eu não perdia nenhuma de suas colunas esportivas.

Fiquei então ali, extático e estático, admirando a figura de um branco esmaecido (mais tarde ele definiu-me sua cor como "branco-redação") barriga proeminente, olhos empapuçados, calças seguras por largos suspensórios, lábio inferior caído e - claro! - um azulado olhar rútilo e penetrante, que logo cedeu ao tédio de ver-me ali tolhido por minha perplexidade. Presenteou-me então com um bufo irônico que guardo até hoje na memória como uma espécie de troféu e ato contínuo virou-me as costas. Tetê tirou-me desse transe com uma vigorosa sacudida:

- Vamos falar com o Reynaldo.

Reynaldo Jardim tinha também os arregalados olhos azuis de Nelson, só que por trás de grossas lentes de míope. Acolheu-me paternalmente e me surpreendeu ao dizer que gostava de minhas músicas, "principalmente aquela que a Nara gravou". Minha autoestima melhorou e a partir dali e eu tive firmeza suficiente para levar a entrevista e convencê-lo de que meu lugar era naquela redação.

Em menos de uma semana já tinha uma mesa, escrevendo colunas de variedades, ora como repórter, ora como crítico de música internacional, chefiado pela doce - e firme - Martha Alencar. Me virava também como fotógrafo e estava adorando aquilo tudo: o barulho das laudas sendo freneticamente datilografadas (o cheiro mesmo da papelada!), a urgência vibrante dos teletipos, a correria vivaz daquela redação carregada de juventude e vontade de tudo e o que mais rolasse... Ao mesmo tempo, tínhamos inesquecíveis aulas de mestres da redação e do jornalismo, como a própria Martha, Otto Maria Carpeaux, Ana Arruda Callado, Carlos Heitor Cony, Galeno de Freitas, Zuenir Ventura e outros nomes hoje firmados como referências  no escrever. No entusiasmo da hora, a música já me parecia ser o plano B e o jornalismo a vocação principal. Mas um acontecimento me fez cair de novo no caldeirão dos sons.

Eu trabalhava ao lado de Dedé Gadelha, à época mulher de Caetano Veloso. Dedé me parecia ser uma menina tímida, de beleza suave, que costumava falar baixinho com um delicioso sotaque baiano. Caetano volta e meia aparecia por lá. Nós nos conhecíamos do tempo em que éramos ambos contratados de Guilherme Araújo. Numa tarde, começamos a conversar sobre o Festival da Record e ele me falou sobre o que seria sua apresentação com a música "Alegria, Alegria":

- É assim, uma marchinha simples, mas quero dar um toque mais pop. Vou entrar com um grupo de rock, uns argentinos... guitarras elétricas, um som mais pesado...

- Rapaz - respondi - você vai segurar uma barra. Mas é uma ideia interessante.

Falei isso porque o Brasil passava então uma fase semelhante à que existe hoje, em termos de divisão ideológica: A esquerda ultranacionalista, num contraditório exercício reacionário, renegava qualquer menção ao som anglo-americano que chegava com mais força a partir do megassucesso dos Beatles. Tinha havido até um tal "movimento anti-guitarra-elétrica" com a participação de alguns dos nomes mais conhecidos da MPB. Para um músico como Caetano, até então - visto seu LP "Domingo", com Gal - visceralmente ligado à MPB de João Gilberto, Donato, Edu Lobo e outros autores e artistas mais tradicionais, figura a princípio atuante no antagonismo ao sucesso do "iê-iê-iê" de Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléia e outros, era uma guinada e tanto. Mas para mim aparecia jornalisticamente como um verdadeiro "furo"...

Enfim, o festival da Record de 1967 acabou por alavancar a carreira de Caetano e definir seu posicionamento sempre polêmico dentro da história musical brasileira. E "O Sol" caiu premido pelas dificuldades financeiras do "pai", Jornal dos Sports. Mas caiu de pé, deixando um forte rastro de inovação, que teve sequência quando Reynaldo Jardim foi chamado para redesenhar gráfica e jornalisticamente o veterano "Correio da Manhã". Junto com ele fomos nós, a "Turma do Sol". Promovido a editor, ganhei a responsabilidade de criar um encarte de música e cinema alternativo, o "Plug", e pude formar uma equipe de preciosos colaboradores, como Torquato Neto, Wally Salomão, Mariozinho Rocha, Monica Hirsch, Leila Barbosa, Graça Motta  e Vera Sastre.

Aprender a escrever e pensar com mestres como Reynaldo, Nelson, Zuenir, Martha, Ana Arruda, Cony, Galeno, Newton Carlos e Carpeaux é uma herança preciosa da minha juventude, da qual me orgulho e não abro mão.

 

 

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