Vida de Artista
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EU, A PÉ...

luiz carlos sá

 

Fazem dois meses que estou sem carro. Isso nunca me havia acontecido antes. Todos os meus amigos sabem que sempre fui um ser de quatro rodas, assim como a maioria dos garotos da minha geração, que nasceram à sombra das heroicas carroças nacionais e passaram a infância assistindo tornar-se real o sonho de JK, que em vez de cortar o Brasil com ferrovias, asfaltou-nos a todos, secundado pela ditadura que rasgou a selva a bordo de tratores e outros monstros. A meu favor, diga-se que sempre fui partidário da poeira, a favor da lama, gostando de chegar onde mandam as dúvidas. Na minha cabeça de recém-motorizado antes até dos dezoito, asfalto era para amadores: logo troquei o cabuloso e frágil Renault Dauphine, meu primeiro carro, por um sólido jipe DKW Candango, tração nas 4, que se propunha a me levar onde eu queria. Só que eu ainda não sabia onde.

Aí vieram as viagens para a casa dos meus amigos Luhli e Luiz Fernando, perto de Mangaratiba. Depois de Itacurussá, a hoje clássica e paisagística Rio-Santos transformava-se numa trilha. E aí o Candango falava alto, mesmo com seu motorzinho de dois tempos, chegando até, algumas vezes, a rebocar os menos dotados. Mas a alegria não durou muito: meu salário não aguentou as exigências mecânicas do motor DKW ("Das Kleine Wunder" - "A pequena maravilha", num alemão otimista). Acabei, tempos depois, por passar-me de armas e bagagens para um Fusquinha 1300. A princípio, eu não gostava de Fusca. Mas tinha uma lembrança querida: o Fusca - alemão ainda - do amigo Zé Ivan: um cabriolé 1200 que carregava a mim e a meus amigos tijucanos para a esbórnia elegante dos bordéis de Barra do Piraí, Barra Mansa e Volta Redonda, onde subíamos nos palcos encantando as moças de vida bem difícil com os recém chegados acordes da Bossa Nova, que elas achavam mais chiques, acreditem,  que as sofrências de Orlando Dias, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves e outros que dominavam ambientes semelhantes Brasil afora. Éramos tão admirados pelas garotas que uma vez fomos postos a bala pra fora do palco por um "coronel" ciumento, irritado pelos olhares dengosos que sua preferida derramava sobre aquele quarteto de jovens cabeludos que olhavam pra ela e cantavam: "olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...". Felizmente ele teve a bondade de atirar primeiro para o alto e nós tivemos a agilidade de pular pra dentro do cabriolé do Zé, inclusive pelo teto. Anote aí o quanto um teto solar pode te ajudar numa hora de pânico.

Não ia contar uma outra passagem pouco digna da minha vida motorizada, mas me sinto numa noite confessional, então lá vai: antes dessa conversão ao Fusca, tive uma recaída-dois-tempos com um DKW sedan que eu quis preparar para correr naquelas lenhas meia boca na Barra da Tijuca que os mais afoitos chamavam de "corridas de estreantes". Lá acabaram por se profissionalizar lendas da época como Emerson Fittipaldi, Luiz Pereira Bueno, Bird Clemente e outros pilotos oficiais das fábricas. Mas meu sonho automobilístico foi bruscamente contido por um poste no acesso Catumbi do túnel Santa Bárbara, que "me achou" a quase 100 por hora. A prima Sonia saiu voando pelo para-brisa  quebrado, levou dezenas de pontos na cabeça e guarda até hoje uma cicatriz - felizmente escondida  em sua farta cabeleira - dessa minha imprudência. Eu fui salvo pelas longarinas de aço do DKW, que usava chassis e não monobloco. Se fosse um Fusquinha, você estaria agora lendo uma outra crônica de um outro cara.

Com um emprego melhor - o que melhor que um emprego público antes de 68?- nos quadros do Itamaraty, comprei um Fusca 1300 bordô, zerinho, mas eu o achava muito comum. Todos tinham aquele Fusca 1300 bordô. Meu pai mesmo tinha um igual. Tem  coisa pior pra um rebelde sem causa que ter um carro igual ao do pai?  E nesse entretempo aí, casei pela primeira vez. Com o advento da ditadura, abandonei o Itamaraty e parti para o jornalismo, a princípio no emblemático "O Sol" e depois no "Correio da Manhã". Eu e Leila, minha então mulher, gostávamos de explorar as praias do entorno carioca, algumas - como Grumari e a Osa - ainda semidesconhecidas. E aí, troquei o Fusca por um buggy Gurgel, achando que ele resolveria melhor nossas investidas arenosas. Acabei por atolar o carro em Grumari, quase o perdendo para a maré alta. Quando levei o Gurgel para a limpeza numa concessionária na rua do Riachuelo, topei com um desses malditos vendo-sedutores sempre prontos a lançar seu veneno em ouvidos alheios:

- Lindo esse seu carro.

- Obrigado! - Minha infinita ingenuidade não percebia o que de lindo ele vira naquele monte de areia salgada em que o Gurgel se transformara.

- Mas eu tenho um mais lindo ainda pra te mostrar aqui...

Segui o cara até os fundos da oficina. Ao canto do pátio, uma capa protetora escondia o que ele achava que seria meu objeto de desejo. Minha prévia ingenuidade já dava lugar a um ceticismo pronto para negar qualquer traço de beleza no que quer que aparecesse.

- Acabou de chegar - disse ele, tirando teatralmente a grossa capa, num ato que parecia ter sido ensaiado por um diretor de vendas. E dali de baixo surgiu um Karmann-Ghia 1969 vermelho, zero bala, lindo e reluzente em seu fluido desenho de curvas perfeitas. Feminino na forma, masculino no cromadíssimo emblema "1500", em menos de quarenta minutos ele já era MEU! Entrei naquele cockpit e desprezei de imediato a dívida que eu acabara de assumir pelos próximos dois anos.

Mas o difícil foi chegar em casa sem o buggy...

- Qual diabo de praia você acha que vamos achar com essa coisa? - lamentou uma decepcionadíssima Leila.

Por sorte minha, o casal Torquato Neto e Ana, nossos companheiros em passeios do falecido Gurgel, estavam lá em casa e vieram em minha defesa:

- O carro é bonito! - entendeu Torquato, sempre favorável à estética.

- E corre bastante! - reforçou Ana, que ao contrário de Leila curtia uma velocidade.

- Carro de burguês! - ideologizou Leila, embora já enfraquecida pelo óbvio fascínio que o Karmann exercera sobre nossos amigos. Ele já era então a obra atemporal de design que admiro até hoje. Não por acaso, dez anos depois, achei meu segundo Karmann 69, desta vez branco. Parado numa garage, baixíssima quilometragem, quase novo, por força de sua dona ser desembargadora e só usar o carro oficial a que tinha direito. Fiquei uns bons anos com ele e só o vendi pro Guarabyra, que passara um bom tempo me convencendo a fazer isso. Já com dois filhos para levar, parti para um Corcel, conformado pelo menos com o fato de que o carro ficara praticamente em família.

Ano passado, meu amigo Padreco deixou que eu dirigisse seu super-vintage-vermelhíssimo Karmann Ghia  69 - em tudo igual ao que eu tive - pelas ruas de Curitiba. Mal acostumado com meu atual carro moderno, achei tudo estranho: o banco baixo, a embreagem dura, o volante enorme... mas adorei cada um dos cerca de quarenta minutos que passei dentro dele, olhado com admiração - e às vezes uma bem perceptível inveja - pelos outros motoristas.

E hoje, eu, a pé. Passeando por meu bairro, não sinto mais falta de carro. Desfilam a meu lado aqueles belos Mercedes, os potentes Audi, um ou outro Camaro com seu ronco grave. Eles não me seduzem mais. Combustíveis fósseis me assustam. O Mundo em que vivemos não suporta mais isso. Meu sonho de consumo agora é estar a bordo de uma fantástica bike profissional, passeando sua beleza negra de fibra de carbono pelas ruas da cidade ou mostrando a força de suas inúmeras marchas nas trilhas que varam as matas próximas daqui. Ou fazer o que tenho feito: andar a pé pelas ruas desta ainda tranquila BH, onde muitas pessoas ainda nos cumprimentam mesmo sem saber quem somos. Como é bom descobrir aquelas velhas casas art-nouveau que datam da fundação da cidade, mesmo que espremidas entre prédios atrevidos.

Mas sei que mais dia menos dia, de repente, um BMW elétrico vai parar ao meu lado e me atirar ao futuro...

 

 

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